REFLEXÕES SOBRE O TRATADO DA VERDADEIRA DEVOÇÃO À SANTÍSSIMA VIRGEM MARIA DE SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONFORT
MARIA ESCOLHIDA POR DEUS
16.Deus Pai deu ao mundo o seu Filho Jesus por meio de Maria. Muitos profetas e reis, tantos patriarcas e santos da antiga aliança suspiraram e suplicaram pelo privilégio de ver nascer o Filho de Deus, de tê-lo conhecido. Mas uma só gerou esse Filho. Somente Maria teve esse privilégio, somente Maria mereceu e achou essa grande graça diante de Deus e do seu trono, por causa da força e do poder da sua oração, da sublimidade e magnitude das suas virtudes. Como disse santo Agostinho, “Assim como o mundo era indigno de receber o Filho diretamente das mãos do Pai, Ele nos deu por meio de Maria”. Ele deu Jesus a Maria para que Maria nos desse Jesus. Jesus se fez homem e se encarnou e veio habitar no meio de nós, entre nós (Jo 1,14), em Maria e por meio de Maria, por causa de Maria. E tudo isso é obra do divino Espírito Santo, da Trindade Santa. Glória a Jesus em Maria, glória a Maria em Jesus. Glória ao divino Espírito Santo. Três vezes Santo. Trindade Una e Santa. Amém.
17. Deus Pai concedeu e doou a Maria o dom da fecundidade física e espiritual conferindo-lhe o poder de se tornar Mãe do seu Filho e mãe de todos nós. Jesus é filho na carne, nós somos filhos na graça, da graça. Maria é mãe de Jesus e mãe de todos nós, de cada um de nós. Não existe filho sem mãe. Maria é nossa mãe e Mãe do Filho de Deus. Somos filhos no Filho, somos filhos de Maria. Jesus é Filho de sangue, nós somos filhos do coração de Maria. Jesus foi gerado, nós somos criados. E Maria que uma vez gerou Jesus na carne quer gerá-lo dentro de nós espiritualmente, cada dia. Devemos deixar Maria gerar Jesus em nós. “Não sou eu quem vive, é Cristo quem vive em mim” (Gal 2,20-21). O sangue que corre no coração de Maria, corre no coração de Jesus e corre no nosso coração. Sangue de vida, da Vida. Sangue de graça, da Graça. Sangue de Deus. O sangue de Jesus é o sangue de Maria. É esse sangue que jorra do coração de Deus. Na Igreja. Para a vida do mundo.
18.Jesus desceu no seio virginal de Maria como o novo Adão no paraíso terrestre, encontrando a complacência de sua Mãe e operando maravilhas secretas na ordem da graça. Não como o primeiro Adão que pecou e fez pecar o gênero humano, Jesus, o novo Adão é filho da graça, nasceu da graça e gerou filhos de Deus na graça (Gal 4,4-6) anulando e apagando o pecado no lenho da cruz. Não como o primeiro Adão que nasceu do solo da terra, Jesus, o segundo Adão nasceu do seio da Virgem. O solo da terra viu nasceu o primeiro homem que pecou e gerou a morte. O seio da Virgem fez nascer o Filho de Deus que nasceu sem pecado e nos deu a graça da salvação eterna. O primeiro Adão foi expulso do paraíso terrestre, o segundo Adão nos devolveu o Paraíso eterno. O primeiro Adão pecou com o fruto do lenho, o segundo morreu no fruto de um lenho, o lenho da Cruz. O primeiro estava nu no paraíso e não se dava conta. O segundo morreu nu na cruz conscientemente e nos salvou. O primeiro pecou com uma virgem, Eva, o segundo nasceu de uma virgem, Maria. O novo Adão é muito superior ao primeiro Adão, como a nova Eva, Maria, é muito superiora à primeira Eva. A primeira Eva nasceu do lado do primeiro homem, a segunda Eva viu a Igreja nascer do costado do segundo Homem (Jo 19,31). A primeira Eva é pecadora, a segunda é co-redentora. A primeira gerou a morte, a segunda gerou o Filho que gerou a Vida. Do lenho da árvore do primeiro paraíso nasceu a morte, do lenho da cruz, a ressurreição, nos devolvendo o Paraíso. A nova Eva gerou o novo Adão. Obrigado Senhor por esse tão grande dom do teu amor. Jesus encontrou a sua mais genuína liberdade em se fazer prisioneiro no seio de Maria. Divino prisioneiro do amor, no seio do amor, Ele mesmo Amor. Divino Prisioneiro no seio da Virgem, no seio do Amor, do divino Amor. Prisioneiro do Amor divino, roga por nós. Jesus fez resplandecer a sua própria Glória deixando-se ocultar no seio virginal de Maria e encontrou a sua própria Glória, a graça e a Glória do Pai escondendo o seu resplendor às criaturas terrestres, revelando-o somente a Maria, sua Mãe Santíssima. Jesus glorificou a sua própria independência e majestade, sendo e tornando-se dependente de uma Mulher, e que Mulher, desde a concepção, nascimento, apresentação ao Templo, sua vida em Nazaré, escondida aos olhos de todos, percebida aos olhos de Deus e de Maria. Deus próprio dependente de uma Mulher. Ó mistério profundo da ciência, do abismo do amor de Deus. O Independente-dependente, Deus-homem, nascido de uma Virgem. Dependente de Maria até a sua morte e morte de Cruz (Jo 19,25-27). Com sua Mãe Jesus oferece ao Pai um único sacrifício, o Seu Sacrifício redentor unido ao sacrifico da Mãe que, Co-redentora, vê o seu Filho unigênito morrer. Sacrifício singular esse da Mãe e do Filho. Maria oferece o seu sangue pela redenção do mundo, porque o sangue que corre nas veias de Cristo é o seu sangue, é o sangue de Maria. O sangue de Jesus é o sangue de Maria. Mistério indelével e magnífico. A Mãe vendo o Filho morrer, morrendo morre com Ele na cruz, se oferecendo com Ele na cruz, Nele, por Ele, para Ele. Porque Ele é tudo para Ela. E Ela é tudo para Ele. Maria não vive sem Jesus e Jesus não vive sem Maria, morre por Maria e por todos nós. Amor profundo, Amor de Deus, amor do tamanho do mundo. Jesus se imola ao Pai com o consentimento de Maria, com o sentimento de Maria, como Isacque, imolado a Deus com o consentimento de Abraão. Foi Maria que amamentou Jesus, que o alimentou, o educou, o protegeu e o sacrificou por amor. Sacrifício de amor. Sacrificando o seu Filho por nós, ela morre da mesma morte de Amor. Amor com amor se paga, Amor com amor se gera, se morre e se ressuscita. Graças ao amor de Maria e de Jesus, nós podemos viver eternamente. O amor da Mãe viu o Filho morrer na cruz. O amor viu o Amor morrer. Esse mesmo Amor nos foi dado e derramado nos nossos corações (Rm 5,5). Essa admirável e insondável dependência de um Deus que se imolou por amor, passou em silêncio nos Evangelhos. Porque Deus age em silêncio, no silêncio de Jesus, no silêncio de Maria. Maria é o silêncio de Deus. Deus fala no silêncio, Deus fala em Maria. Dependência de Deus em Maria, vivendo em Maria, vivendo na presença de Maria. Essa vida escondida de Jesus, somente Maria conhece. Jesus deu maior glória ao seu Pai nesses trinta anos vivendo oculto ao lado de Maria do que se fizesse todos os milagres da natureza e da graça. Jesus se submete a sua Mãe, por amor ao seu Pai, à vontade do seu Pai. Deus submisso, Deus dependente, Deus amor. Deus livre. Deus de Amor. Deus Amor. Amor de Deus. Feito de Amor, da substância do Amor. Da mesma forma damos muita mais glória a Deus nos submetendo e vivendo na dependência de Maria do que se realizássemos todas as boas obras no mundo e do mundo. Como Jesus foi dependente da sua Mãe, nós também devemos ser dependentes de tão terna Mãe. Como Jesus renunciou a sua liberdade para se submeter a sua Mãe, nós também devemos renunciar a nossa liberdade, a nossa vida, a nossa vontade, aos nossos desejos, pra viver só de Maria, em Maria, vivendo só com Jesus, em Jesus. Escravos de amor, do Amor. Amém. Amor de Jesus, amor de Maria. O sangue que corre nas veias de Jesus é o sangue de Maria.
Padre Fernando

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